Antibióticos: por que o uso incorreto está criando superbactérias?
Thiago Rodrigues | 21 de junho 2025

O avanço da medicina moderna, especialmente a descoberta e o uso dos antibióticos, revolucionou o tratamento de infecções bacterianas, salvando milhões de vidas em todo o mundo. No entanto, essa conquista está ameaçada por um problema crescente: o surgimento das chamadas superbactérias, bactérias resistentes a múltiplos antibióticos. O uso incorreto e indiscriminado desses medicamentos é o principal fator que contribui para essa crise global de saúde. Neste artigo, vamos detalhar como os antibióticos funcionam, os motivos que levam ao uso inadequado, as consequências da resistência bacteriana e o que pode ser feito para conter essa ameaça.
Como os antibióticos atuam?
Antibióticos são substâncias químicas ou naturais capazes de eliminar bactérias ou impedir seu crescimento, ajudando o sistema imunológico do corpo a combater infecções. A penicilina, descoberta por Alexander Fleming em 1928, foi o primeiro antibiótico amplamente utilizado, marcando o início de uma nova era na medicina.
Existem diferentes classes de antibióticos, que agem de formas distintas. Alguns interferem na síntese da parede celular bacteriana, outros inibem a produção de proteínas ou a replicação do DNA das bactérias. A eficácia dos antibióticos depende da sensibilidade da bactéria ao medicamento e da dose correta aplicada durante o tempo prescrito.
O que é resistência bacteriana?
A resistência bacteriana ocorre quando as bactérias desenvolvem mecanismos para sobreviver à ação dos antibióticos, tornando-os ineficazes. Essas defesas podem ser naturais ou adquiridas, por mutações genéticas ou troca de material genético entre bactérias.
A resistência não é um fenômeno novo, mas o uso inadequado dos antibióticos acelerou o processo de seleção e disseminação dessas bactérias resistentes. Isso significa que infecções comuns podem se tornar difíceis ou até impossíveis de tratar, aumentando o risco de complicações, hospitalizações prolongadas e até mortes.
Uso incorreto de antibióticos: causas principais
Diversos fatores contribuem para o uso inadequado de antibióticos, entre eles:
1. Automedicação
No Brasil e em muitos outros países, ainda é comum que as pessoas adquiram antibióticos sem receita médica ou usem sob orientação própria, baseando-se em sintomas ou em experiências passadas. Essa prática é perigosa porque o antibiótico pode não ser adequado para o tipo de infecção, não ser necessário ou ser usado em dose ou duração erradas.
2. Interrupção precoce do tratamento
Muitas pessoas param de tomar o antibiótico assim que se sentem melhor, mesmo sem terminar o ciclo completo indicado pelo médico. Isso pode não eliminar totalmente as bactérias, que ficam expostas ao medicamento e têm maior chance de desenvolver resistência.
3. Uso para infecções virais
Antibióticos não têm efeito contra vírus, que causam doenças como gripe, resfriado, bronquite viral e muitas faringites. Mesmo assim, muitos pacientes pedem e profissionais às vezes prescrevem antibióticos para esses casos, contribuindo para o problema da resistência.
4. Falta de diagnóstico preciso
Em alguns lugares, o diagnóstico inadequado ou a falta de exames laboratoriais levam a tratamentos empíricos e, às vezes, ao uso desnecessário de antibióticos.
5. Uso excessivo na agricultura e pecuária
O uso de antibióticos para promover crescimento e prevenir doenças em animais também contribui para a resistência, já que bactérias resistentes podem ser transmitidas para humanos via alimentos ou meio ambiente.
Consequências do uso incorreto e da resistência bacteriana
O crescimento das superbactérias tem impactos diretos e alarmantes para a saúde pública:
- Tratamentos mais caros e longos: Infecções resistentes exigem uso de medicamentos mais potentes, caros e com maior risco de efeitos colaterais.
- Aumento da mortalidade: Estima-se que, se nada for feito, as infecções resistentes podem causar até 10 milhões de mortes por ano até 2050, superando o câncer.
- Risco em procedimentos médicos: Cirurgias, transplantes e tratamentos oncológicos dependem de antibióticos eficazes para prevenir infecções. A resistência pode colocar esses procedimentos em risco.
- Disseminação global: Bactérias resistentes podem se espalhar rapidamente entre pessoas, comunidades e países, graças à globalização e ao turismo.
Um olhar comparativo: uso inadequado e resistência pelo mundo
O uso inadequado de antibióticos varia bastante entre os países, sendo influenciado por:
- Fatores econômicos
- Cultura local
- Acesso à saúde
- Rigor na regulamentação e fiscalização do uso de medicamentos
Comparativo por país:
- 🇧🇷 Brasil:
- 40% de uso inadequado de antibióticos
- Nível de resistência bacteriana: Alto
- Contribuições para esse cenário:
- Automedicação frequente
- Acesso irregular a serviços de saúde
- Prescrições inadequadas
🇺🇸 Estados Unidos:
- 30% de uso inadequado
- Nível de resistência: Médio
- Contribuições:
- Educação pública mais estruturada sobre antibióticos
- Melhor acesso a diagnósticos laboratoriais
🇮🇳 Índia:
- 60% de uso inadequado
- Nível de resistência: Muito alto
- Contribuições:
- Antibióticos vendidos livremente em muitas regiões
- Alta incidência de doenças infecciosas
- Infraestrutura sanitária deficiente
- 🇧🇷 Brasil:
Conclusão:
- Países com maior descontrole no uso de antibióticos tendem a registrar níveis mais alarmantes de resistência bacteriana.
A conscientização da população e a regulamentação mais rígida são fundamentais para controlar essa tendência global.
Como podemos combater a resistência bacteriana?
O combate ao crescimento das superbactérias requer ação coordenada e urgente em múltiplas frentes. Algumas medidas essenciais são:
1. Uso responsável dos antibióticos
Profissionais de saúde devem prescrever antibióticos apenas quando indicados, no medicamento certo, dose correta e tempo adequado. Pacientes precisam seguir rigorosamente as orientações médicas, sem interromper o tratamento antes do previsto.
2. Educação e conscientização
Campanhas públicas são fundamentais para informar a população sobre os riscos do uso incorreto e os cuidados necessários. Esclarecer que antibióticos não funcionam para gripes e resfriados é um passo crucial.
3. Regulamentação e fiscalização
O controle da venda de antibióticos deve ser rigoroso, evitando a automedicação. No Brasil, a venda de antibióticos sem receita foi proibida, mas a fiscalização ainda precisa ser fortalecida.
4. Diagnóstico rápido e preciso
Investir em tecnologias para identificar rapidamente o agente causador da infecção ajuda a evitar o uso desnecessário de antibióticos e a escolher o medicamento mais eficaz.
5. Monitoramento da resistência
Sistemas de vigilância nacional e internacional ajudam a mapear a resistência bacteriana, identificando surtos e orientando políticas públicas.
6. Redução do uso na agricultura
Revisar práticas agropecuárias e restringir o uso preventivo de antibióticos em animais para evitar a disseminação da resistência.
Descarte correto de medicamentos
Outro aspecto importante é o descarte adequado dos antibióticos vencidos ou não utilizados. Jogá-los no lixo comum ou no vaso sanitário pode contaminar o meio ambiente e contribuir para o aumento da resistência bacteriana. Farmácias, unidades de saúde e órgãos públicos devem oferecer pontos de coleta para descarte seguro.
O papel da ciência e da indústria farmacêutica
A pesquisa por novos antibióticos é essencial, já que muitos medicamentos disponíveis hoje já perderam eficácia contra várias bactérias. No entanto, o desenvolvimento de novos antibióticos é complexo e caro, e o retorno financeiro pode ser baixo, desestimulando investimentos.
Incentivos governamentais e parcerias público-privadas são necessários para estimular a inovação, além de explorar terapias alternativas, como o uso de bacteriófagos e vacinas.
Conclusão
A crise das superbactérias é um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI. O uso incorreto dos antibióticos está acelerando o processo de resistência bacteriana, colocando em risco conquistas importantes da medicina moderna.
É fundamental que profissionais de saúde, pacientes, governos, indústria e sociedade civil atuem juntos para promover o uso racional dos antibióticos, investir em diagnóstico e pesquisa, e implementar políticas efetivas de controle e educação.
Somente com uma ação coordenada será possível preservar a eficácia desses medicamentos essenciais e garantir a saúde das futuras gerações.
Fontes e referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS) – Resistência Antimicrobiana
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – Normativa sobre antimicrobianos
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Estatísticas de Saúde Pública
- Relatório acadêmico – Resistência bacteriana e uso indiscriminado de antibióticos